Mas ao que não trabalha, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada como justiça (Romanos 4:5)
Imagine que você receba uma fatura enorme — maior do que poderia pagar em toda uma vida. Você abre o envelope com as mãos tremendo. Lê o valor. Fecha os olhos. E então, embaixo do total, encontra um carimbo: QUITADA. Paga por outro. Em seu favor.
É exatamente isso que Romanos 4 nos mostra. Paulo usa uma palavra técnica — imputação — que significa, simplesmente, lançar na conta de alguém. Deus lançou na conta de Cristo todos os nossos pecados. E lançou na nossa conta toda a justiça de Cristo. Não porque mereçamos, mas porque assim Ele escolheu fazer — pela fé, pela graça, por amor.
Abraão não chegou a Deus pelas suas obras
Paulo começa com uma pergunta desconcertante: o que Abraão, nosso pai, descobriu? A resposta surpreende. Não foi sua obediência, nem sua coragem em deixar Ur, nem sua disposição de sacrificar Isaque que o colocou de pé diante de Deus. Foi a fé. Simples, despida, confiante.
E a fé de Abraão não era uma fé fácil. Ele era idólatra antes de ser chamado. Tinha mais de oitenta anos quando Deus lhe prometeu um filho. Seu corpo, nas palavras de Paulo, estava “como morto”. Sara era estéril. Não havia nada na circunstância que sustentasse a promessa. E, ainda assim, “não duvidou da promessa de Deus por incredulidade, antes foi fortalecido na fé, dando glória a Deus” (Rm. 4:20).
Abraão não ignorou a realidade. Ele a conhecia muito bem. Mas se recusou a deixá-la ter a última palavra. Porque conhecia — melhor do que conhecia sua própria fraqueza — o Deus que havia prometido.
Imputação: o coração do Evangelho
A palavra imputação aparece várias vezes neste capítulo, e cada ocorrência é uma janela para o coração do Evangelho. Há três grandes imputações na história da redenção que precisamos compreender:
Primeira: O pecado de Adão foi imputado a toda a humanidade. Não como injustiça, mas porque Adão era o nosso representante. Quando ele caiu, nós caímos nele.
Segunda: Os nossos pecados — todos eles, sem exceção — foram imputados a Cristo na cruz. “Aquele que não conheceu pecado, Deus o fez pecado por nós” (2 Co. 5:21). Jesus não foi punido por engano. Ele foi punido no lugar certo — no lugar de cada um dos que creem.
Terceira: A justiça de Cristo é imputada a todos os que creem. Não parcialmente, não provisionalmente, não mediante desempenho futuro. Completamente. Permanentemente. A conta está quitada, e o certificado de quitação levado para a cruz.
É por isso que Paulo pode citar o Salmo 32 de Davi com tanto entusiasmo: “Bem-aventurados aqueles cujas iniquidades são perdoadas e cujos pecados são cobertos. Bem-aventurado o homem a quem o Senhor não imputará pecado” (vv. 7–8). A bem-aventurança não é a ausência de pecado — é a certeza de que esse pecado foi tratado.
Aplicações práticas para esta semana
Romanos 4 não é apenas doutrina para apreciar — é realidade para viver. Considere três aplicações concretas:
1. Pare de tentar pagar uma conta já quitada. Uma das formas mais comuns de infelicidade cristã é a tentativa de ganhar, por desempenho, aquilo que já foi dado gratuitamente. Se você acorda toda manhã com a sensação de que precisa “ganhar” a aprovação de Deus pelo dia, saiba: a conta está paga. Você começa o dia justificado, não condicionado. Isso não é preguiça espiritual — é fé no Evangelho.
2. Olhe para as promessas, não para as circunstâncias. Abraão tinha mais evidências contra a promessa do que a favor dela. E, ainda assim, creu. Você provavelmente tem hoje alguma “Sara estéril” na sua vida — uma situação que parece definitivamente encerrada. Uma relação, uma saúde, uma esperança que não se realiza. O Deus de Abraão é o Deus que vivifica os mortos e chama as coisas que não são como se fossem (Rm. 4:17). Nada está definitivamente encerrado enquanto Ele não disse a última palavra.
3. Lembre-se de que você tem um pai. Abraão não é apenas um personagem bíblico distante. Paulo o chama explicitamente de “pai de todos nós” (Rm. 4:16). Isso significa que você pertence a uma família que atravessa séculos, continentes e línguas — a família dos que creem. Quando você se sentir sozinho, lembre-se: você é filho de Abraão, irmão de Paulo, coerdeiro da mesma promessa que fez um ancião de noventa e nove anos olhar para o céu estrelado e crer.
Oração
Senhor e Pai nosso,
Confessamos que muitas vezes vivemos como se a conta não estivesse paga — como se ainda precisássemos conquistar o Teu amor pelo esforço de cada dia. Perdoa-nos por essa desconfiança disfarçada de humildade.
Ensina-nos a fé de Abraão: não a fé que ignora a dificuldade, mas a fé que se recusa a deixar que a dificuldade tenha a última palavra. Que possamos olhar para nossas circunstâncias impossíveis e, ainda assim, dar glória a Ti — porque sabemos que és capaz de cumprir o que prometeste.
Que a pregação de hoje plante fundo em nossos corações a certeza da imputação: o pecado de Adão foi nosso; os nossos pecados foram de Cristo; a justiça de Cristo agora é nossa. Que essa verdade nos livre do orgulho quando as coisas vão bem, e do desespero quando as coisas vão mal.
E que, ao sairmos deste culto, saibamos que somos filhos de Abraão — herdeiros de uma promessa maior do que qualquer dificuldade que enfrentamos, membros de uma família maior do que qualquer solidão que sentimos, servos de um Deus maior do que qualquer morte que tememos.
Pedimos tudo isso em nome daquele que foi entregue por nossos delitos e ressuscitou para nossa justificação — Jesus Cristo, nosso Senhor.
Amém.
Pr. Alan