O Segundo Casamento

Romanos 7

Há um gemido no coração de Romanos 7 que qualquer cristão honesto reconhece: “Miserável homem que eu sou! Quem me livrará do corpo desta morte?” (Rm. 7:24). Quem de nós não sentiu esse peso — a distância entre o que professamos e o que vivemos, entre a lei que aprovamos com a mente e os membros que nos conduzem pelo caminho contrário? O apóstolo não está sendo fraco quando escreve essas palavras. Está sendo preciso. E ao ser preciso, está sendo misericordioso conosco.

Mas antes de chegarmos ao gemido, precisamos entender a estrutura da qual ele emerge. Paulo não está simplesmente descrevendo a angústia da vida cristã como se fosse a condição permanente do crente. Ele está contando uma história — a história de Israel, a história da humanidade em Adão, a história de um casamento que precisava terminar para que outro pudesse começar:

Assim, meus irmãos, também vós morrestes relativamente à lei, por meio do corpo de Cristo, para pertencerdes a outro, a saber, aquele que ressuscitou dentre os mortos, a fim de que frutifiquemos para Deus” (Rm. 7:4).

A ilustração de Paulo é nupcial e, por isso, profunda. Nós – a humanidade – éramos casados com Adão. Ele era a nossa cabeça federal, o marido a cuja sorte estávamos vinculados pela lei. E esse primeiro casamento produzia exatamente o que se esperava: fruto para a morte. Não porque a lei fosse má. A lei é santa, justa e boa (Rm. 7:12). Mas uma boa lei pode muito bem prender uma mulher a um mau marido. O problema nunca foi o vínculo; o problema era o homem.

E aqui está a graça que muda tudo: a mulher não podia simplesmente abandonar o primeiro marido. A lei não permitia. A única saída era a morte. E foi exatamente isso que Deus providenciou. Adão morreu – no novo Adão. Cristo tomou sobre Si a nossa solidariedade com o primeiro homem, desceu à morte com ela, e ressuscitou sem ela. O primeiro matrimônio ficou do lado de cá da sepultura. Do outro lado, havia um noivo esperando.

Isso lança luz sobre algo que muitas vezes nos confunde: por que Paulo fala tão intensamente sobre a experiência de derrota em Romanos 7? A resposta é que ele está personificando Israel — o Israel não regenerado, aquele que recebeu a Torá, a aprovou, a admirou, e mesmo assim descobriu que o pecado usava essa mesma Torá para crescer até a sua plena maturidade. Israel era uma estufa fechada pelo vidro da lei e aquecida pelo sol da santidade de Deus — ambiente ideal não para as orquídeas que a placa do lado de fora prometia, mas para as ervas daninhas que o coração abrigava.

Paulo sabia disso por experiência. Antes do caminho de Damasco, Saulo de Tarso era um hebreu dos hebreus, zeloso, irrepreensível segundo a letra da lei – e perseguidor da Igreja de Deus. Seu zelo estava ao serviço do primeiro marido. A lei que ele amava estava sendo usada pelo pecado que ele não via. E quando o Senhor o derrubou naquele caminho, o que aconteceu foi exatamente o que acontece a cada convertido: Adão morreu, e Saulo foi casado com o Ressurreto:

Agora, porém, libertados da lei, estamos mortos para aquilo a que estávamos sujeitos, de modo que servimos em novidade de espírito e não na caducidade da letra” (Rm. 7:6)

É aqui que a palavra novidade merece toda a nossa atenção. Paulo não está dizendo que somos livres da lei – está dizendo que somos livres para a lei, mas de uma forma nova. Quando o fruto brota de uma árvore viva, não é porque a árvore se esforçou laboriosamente para produzir cada maçã. O fruto é consequência da vida. Isso vale para a obediência cristã: ela não é o esforço angustiado de quem ainda está casado com o primeiro marido e tenta, por obras, agradar a Deus. É o fruto orgânico de quem vive unido ao Ressurreto.

Isso tem implicações práticas imensas para a nossa vida congregacional. Há entre nós, certamente, quem vive na angústia de Romanos 7 como se ela fosse o destino permanente do crente – quem acorda todo dia carregando a culpa de ontem, quem confunde a luta contra o pecado com a ausência de graça, quem lê a própria fraqueza como prova de que Deus está desapontado. Para esses irmãos, a mensagem de Paulo é libertadora: o gemido não é o final da história. Logo depois vem Romanos 8: Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Rm. 8:1).

Há também, entre nós, quem lê a liberdade do evangelho como dispensa da obediência – quem conclui que, uma vez justificado, o padrão moral da lei já não importa. Para esses, Paulo é igualmente claro: a lei é santa. O mandamento é justo. Cristo não veio abolir a lei, mas cumpri-la – e nos casar com Ele de tal forma que o Espírito nos capacite a caminhar nos Seus preceitos. O segundo casamento não é uma vida sem padrão; é uma vida com um marido diferente, que nos ama e nos transforma.

Portanto, o convite de Romanos 7 é que nos situemos corretamente na história redentora. Não somos mais os casados com Adão – esse matrimônio morreu na cruz. Somos os casados com Cristo – esse matrimônio foi selado na ressurreição. E o fruto que produzimos não nasce do nosso esforço desesperado, mas da vida de Quem habita em nós pelo Espírito.

Que esta palavra nos encontre onde estamos – seja no gemido, seja na gratidão, seja na luta – e nos conduza sempre ao mesmo lugar: “Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor” (Rm. 7:25).

Em Cristo,

Pr. Alan Kleber

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