“Perdoados lhe são os seus muitos pecados, porque ela muito amou.” (Lucas 7:47)”
O Evangelho de Lucas nos conduz, no capítulo 7, à casa de Simão, o fariseu, onde duas pessoas se encontram diante de Jesus: um religioso respeitável, seguro de sua própria justiça, e uma mulher conhecida na cidade como pecadora. Ela nada diz. Apenas chora, lava os pés do Senhor com suas lágrimas, enxuga-os com os cabelos, beija-os e os unge com perfume. Simão, escandalizado, murmura em seu coração: se este homem fosse profeta, saberia quem ela é. Ele sabia – e é exatamente por isso que a recebeu.
Para respondermos ao fariseu que habita em cada um de nós, o Senhor conta uma breve parábola: dois devedores, um devendo quinhentos denários, outro cinquenta, e um credor que, não tendo eles com que pagar, perdoou graciosamente a ambos. Eis o coração do pacto da graça. Nas Escrituras, o pecado é retratado como dívida impagável. Nenhum dos dois devedores tinha com que pagar – nem o de quinhentos, nem o de cinquenta. A diferença entre Simão e a mulher não estava na capacidade de quitar a dívida, mas na consciência de sua falência. A teologia reformada chama isso de depravação total: não que sejamos o pior que poderíamos ser, mas que nada em nós – razão, vontade, afetos ou obras – pode nos habilitar diante do Deus santo. “Não há justo, nem um sequer” (Rm. 3:10).
É aqui que a perspectiva pactual ilumina o texto. Desde a queda, Deus não trata com o homem à base do mérito, pois no pacto das obras já fomos provados e reprovados em Adão. Ele trata conosco em Cristo, o Mediador do novo pacto, fiador de uma dívida que não era sua. O credor da parábola não ignora a dívida – ele a assume. O perdão que a mulher recebeu não foi um gesto de tolerância divina, mas o fruto antecipado da cruz, onde o Cordeiro pagaria, com seu próprio sangue, os quinhentos denários dela e os cinquenta de Simão. “Ele é a propiciação pelos nossos pecados” (1Jo. 2:2).
Atentemos, porém, para a ordem das coisas no versículo 47, pois dela depende todo o Evangelho. À primeira leitura, poderia parecer que a mulher foi perdoada porque amou muito – como se o amor dela tivesse comprado o perdão. Mas a própria parábola desfaz o equívoco: Jesus pergunta a Simão qual dos devedores amará mais, e a resposta é: aquele a quem mais se perdoou. O amor não é a causa do perdão; é a sua evidência. Ela amou muito porque lhe foi perdoado muito. A graça vem primeiro; a gratidão a acompanha. É a ordem que os reformadores resgataram nas Escrituras e que o Catecismo de Heidelberg estruturou de modo tão pastoral: primeiro conhecemos a nossa miséria, depois a nossa redenção, e só então a gratidão – vida cristã inteira como resposta de amor, jamais como pagamento.
Simão nos adverte solenemente. Ele estava na presença de Cristo, à mesa com Cristo, e permaneceu frio. Não ofereceu água para os pés, nem ósculo, nem óleo – as cortesias mais elementares. Quem ama pouco é quem julga ter sido perdoado de pouco. O maior perigo espiritual de uma igreja histórica e confessional como a nossa não é o escândalo da mulher pecadora; é a frieza do fariseu batizado. Podemos estar na comunidade do pacto, cercados dos meios da graça – Palavra, sacramentos, oração – e ainda assim, tratar Jesus com a polidez distante de Simão, sem lágrimas, sem quebrantamento, sem perfume derramado.
A palavra final do Senhor à mulher é a palavra que sustenta toda a nossa esperança: “A tua fé te salvou; vai-te em paz” (Lc. 7:50). Não o seu amor, não as suas lágrimas, não o seu perfume – a sua fé. E a fé salva não por ser uma obra meritória, mas por ser a mão vazia que recebe a Cristo e todos os seus benefícios. Sola fide, sola gratia, solus Christus. E o fruto imediato da justificação é a paz: “Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus, por meio de nosso Senhor Jesus Cristo” (Rm. 5:1). A mulher entrou naquela casa como devedora insolvente e saiu em paz, como filha do pacto.
Portanto, que este Dia do Senhor nos encontre, não à mesa de Simão, calculando os pecados alheios, mas aos pés de Cristo, cientes da grandeza da nossa dívida e da suficiência maior do nosso Fiador. Venhamos à Casa do Senhor como quem foi perdoado de muito, e por isso, ama muito. Que o nosso culto, a nossa comunhão e o nosso serviço sejam o perfume derramado da gratidão de corações resgatados. E que, ao final, ouçamos do próprio Cristo, pela sua Palavra, a bênção que não envelhece: a tua fé te salvou; vai-te em paz.
Soli Deo Gloria.
Pr. Alan