Honra: o mandamento que carrega o futuro

“Honra a teu pai e a tua mãe, como o SENHOR, teu Deus, te ordenou, para que se prolonguem os teus dias e para que te vá bem na terra que o SENHOR, teu Deus, te dá” (Deuteronômio 5:16).

Escrevo sobre um mandamento que a nossa época decidiu esquecer – e que, precisamente por isso, precisamos lembrar. Quando Deus, na segunda tábua da sua lei, passa a tratar do amor ao próximo, o primeiro próximo que ele nomeia não é o rei, nem o juiz, nem o estranho: é o pai e a mãe. A sociedade, aos olhos de Deus, não começa no palácio nem na praça; começa no lar.

A palavra “honra”, no hebraico, vem de uma raiz que significa peso. Honrar pai e mãe é atribuir-lhes peso, gravitas (lat., “gravidade”): tratá-los como pessoas de substância e dignidade na ordem que Deus estabeleceu. O contrário de honrar é tratar como leve, como descartável. E eis por que este mandamento é tão sério: nossos pais são a fonte imediata da vida que Deus nos deu. Quem despreza o canal, despreza o Doador. Quem trata como leve a origem da própria vida está, sem perceber, em guerra contra o próprio ser – e não é por acaso que uma geração ensinada a desprezar os pais se tornou uma geração devorada pela autopiedade, pela amargura e pelo tédio de viver.

Mas o nosso Deus é o Deus do pacto, e este mandamento é a dobradiça pela qual o pacto atravessa o tempo. “Pois para vós outros é a promessa, para vossos filhos…” (At. 2:39). A fé passa de geração em geração ao redor de mesas onde pais ensinam a lei do SENHOR e filhos honram os que a ensinam. Cada lar fiel desta congregação é uma cabeça de ponte do reino de Cristo na história. Por isso o apóstolo Paulo chama este mandamento de “o primeiro mandamento com promessa” (Ef. 6:2) – e que promessa! Vida prolongada e bem-estar “sobre a terra”. Note: Paulo, escrevendo a gentios que nada possuíam em Canaã, universaliza a promessa. Canaã era o penhor; a herança é o mundo. “Os mansos herdarão a terra” (Sl. 37:11; Mt. 5:5). A nossa fé não é uma religião de fuga: é uma fé que crê que Cristo reina, que o evangelho vencerá na história, e que a fidelidade paciente das gerações – não a revolta dos amargurados – é o caminho pelo qual os mansos herdam a terra.

Que significa isso, na prática, para as nossas casas?

Aos filhos e jovens: a obediência de vocês “no Senhor” é adoração, não mera etiqueta doméstica. Seus pais não são perfeitos – nenhum pai o é –, mas guardem-se da mentira da época, que os ensina a ser vítimas nobres de autoridades tolas. Descobrir os defeitos do pai não é maturidade; maturidade é honrá-lo mesmo conhecendo-os.

Aos adultos com pais vivos: o mandamento não expirou quando vocês saíram de casa; mudou de forma. Chama-se agora cuidado: telefonar, visitar, prover, incluir, ouvir com paciência. O Senhor Jesus condenou duramente os que, sob capa de devoção, abandonavam os pais necessitados (Mc. 7:9-13). A honra que Deus aceita tem mãos, tem bolso, tem tempo – e, quando preciso, tem um quarto na casa.

Aos pais e mães: “não provoqueis a ira a vossos filhos” (Ef. 6:4). Não podemos exigir honra e viver de modo desprezível. A autoridade paterna é ministério, não posse. Mantende o culto doméstico; falem da Palavra assentados em casa e andando pelo caminho. Vocês estão criando os anciãos, os pais e as mães de daqui a trinta anos – estão, literalmente, edificando a igreja do futuro.

À igreja toda: honremos os nossos idosos. “Diante das cãs te levantarás” (Lv. 19:32). Uma igreja que segrega os velhos e idolatra a juventude foi discipulada pelo espírito da época, não pelo Espírito de Cristo. Cuidemos das viúvas; acolhamos como família os que perderam as suas famílias.

Irmãos, nenhum de nós guardou este mandamento como devia – e é por isso que ele, como toda a lei, nos conduz a Cristo. Contemplem o Filho eterno, submisso a um carpinteiro em Nazaré (Lc. 2:51); contemplem o Salvador que, pendurado na cruz, gastou uma das suas últimas palavras providenciando cuidado para a mãe (Jo. 19:26-27). Ele cumpriu o mandamento em nosso lugar e levou a maldição da nossa desonra, para que a bênção e a herança fossem nossas pela fé. Justificados nele, honramos agora não para ganhar a herança, mas porque já somos herdeiros.

Tenham bom ânimo quanto ao futuro. O profeta viu as praças da cidade de Deus cheias “de velhos e velhas… de meninos e meninas que nelas brincarão” (Zc. 8:4-5). Esse é o retrato da civilização do quinto mandamento – e é para lá que a história caminha, porque Cristo reina “até que haja posto todos os inimigos debaixo dos seus pés” (1Co. 15:25). Nossos pais na fé plantaram carvalhos debaixo dos quais nunca se assentaram. Plantemos nós também. A fidelidade pactual de hoje é a cristandade de amanhã.

Que tudo vá bem, a vós e a vossos filhos depois de vós.

No amor do Filho que honrou até o fim,

Pr. Alan

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