A Glória Vindoura

“Porque não recebestes o espírito de escravidão, para viverdes, outra vez, atemorizados, mas recebestes o espírito de adoção, baseados no qual clamamos: Aba, Pai” (Rm. 8:15).

Amada congregação,

Há duas maneiras de morar na casa de Deus: como escravo ou como filho. O escravo acorda calculando se o seu serviço bastará para evitar o castigo; o filho acorda sabendo que o seu lugar à mesa não depende do serviço, mas do nascimento. E o apóstolo Paulo nos diz qual Espírito recebemos: não o espírito de escravidão, que nos devolveria ao medo, mas o Espírito de adoção, pelo qual clamamos: Aba, Pai.

Repare na palavra: clamamos. Não “recitamos”, não “protocolamos”. A oração cristã não é o expediente de uma repartição, com formulários corretos e voz neutra; é o grito de uma criança que corre para o colo. Muitos de nós, ao abraçar a fé reformada, fugimos (e com razão) do sentimentalismo religioso, do culto reduzido a emoções fabricadas. Mas cuidado: também não há sentimentalismo nenhum num cemitério, e ninguém deveria se converter à sã doutrina para virar lápide. O mesmo Espírito que nos ensina a doutrina nos ensina o clamor. Doutrina nos ossos e “Aba” nos lábios – é assim que se parece um filho.

E de onde vem a nossa certeza de que somos filhos? “O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus” (Rm. 8:16). Mas note: porque o Espírito não é testemunha falsa, o seu testemunho soa sempre em três lugares de uma vez – no coração, na Palavra e no caráter da vida – e nos três ele diz a mesma coisa. Quem alega ouvir a voz interior, mas vive em contradição com a Escritura e sem fruto, não está ouvindo o Espírito; está ouvindo a si mesmo em tom solene. E quem tem a doutrina toda na cabeça, mas jamais clamou “Pai” do fundo da alma, precisa perguntar se conhece a Deus ou apenas o catecismo sobre Deus; e o próprio catecismo o mandaria adiante, ao Pai.

Ora, se somos filhos, algo se segue: “… somos também herdeiros, herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo…” (Rm. 8:17). Nunca pense em Cristo como um indivíduo isolado; ele é o nosso irmão mais velho, cabeça de uma família imensa. Tudo o que aconteceu com ele é contado como nosso: a sua morte, o seu sepultamento, a sua ressurreição, a sua glória. Quando ele entrar na herança final e completa, nós entraremos com ele. Hoje essa união é apreendida pela fé; chegará o dia em que será inteiramente visível.

Mas o versículo 17 tem uma cláusula que não podemos pular: “… se com ele sofremos, também com ele seremos glorificados”. O caminho da coerança passa pelo cosofrimento, não porque o sofrimento compre a glória (Cristo a comprou), mas porque a união com Cristo é união com ele inteiro, crucificado e o ressurreto. Quem deseja a coroa de Cristo sem a sua cruz procura outro Cristo, que não existe.

E como se comparam as duas coisas, o sofrimento presente e a glória vindoura? Paulo responde com uma balança: “Porque para mim tenho por certo que os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós” (Rm. 8:18). E quem disse isso não foi um teólogo de gabinete. Foi um homem cinco vezes açoitado, três vezes espancado com varas, uma vez apedrejado, náufrago, faminto, perseguido… um homem coberto de cicatrizes. Ele conhecia o sofrimento por dentro. Ainda assim, disse: ponham num prato da balança todos os sofrimentos de todos os santos de todos os séculos, como um pó fino; ponham no outro um único lingote de ouro, cinco minutos de glória. A balança despenca. Não porque as dores sejam pequenas (pois elas não são), mas porque a glória é imensurável, e Deus mesmo enxugará toda lágrima.

Deixo-lhe, pois, três palavras pastorais.

A primeira delas, examine o seu clamor. Você ora como escravo que negocia ou como filho que corre para o colo? Se o medo domina a sua vida de oração, volte ao versículo 15: você não recebeu esse espírito.

Segunda: pese o seu sofrimento na balança certa. Alguns entre nós carregam cruzes pesadas (doença, luto, solidão, filhos distantes). O texto não chama isso de leve; chama a glória de peso. Sofra como quem herda, com lágrimas honestas e com os olhos elevados para o horizonte.

Terceira: pais, preguem Romanos 8.15 em casa. Um filho que corre sem medo para os braços do pai está aprendendo teologia antes de saber ler. A sua firmeza e a sua ternura pintam, todos os dias, um retrato de Deus diante dos seus filhos. Seja um retrato fiel.

Que o Espírito de adoção conserve em nós, nesta semana, o clamor dos filhos e a esperança dos herdeiros, até o dia em que a glória for revelada em nós.

No amor do Pai, que nos chamou de filhos,

Pr. Alan

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