A HISTÓRIA ESTÁ GRÁVIDA

“Porque sabemos que toda a criação, a um só tempo, geme e suporta angústias até agora” (Rm 8.22)

Amada congregação,

Há dois tipos de gemido no mundo, e confundi-los é confundir tudo. Há o gemido do moribundo, que termina em silêncio; e há o gemido da parturiente, que termina em choro de recém-nascido e alegria na casa. O apóstolo Paulo nos diz qual dos dois a criação inteira está gemendo: “Porque sabemos que toda a criação, a um só tempo, geme e suporta angústias [dores de parto] até agora”. O mundo velho não está morrendo à toa; está dando à luz.

E o que está para nascer? Eis a surpresa do texto: “A ardente expectativa da criação aguarda a revelação dos filhos de Deus” (Rm. 8:19). O universo inteiro (galáxias e formigas, oceanos e sertões) está de pescoço esticado, esperando o dia em que os filhos de Deus serão revelados em glória. O mundo lhe dirá, de mil maneiras, que você é pequeno: um número no trânsito, um crachá na firma, um perfil entre bilhões. A Escritura diz o contrário: se você está em Cristo, a criação espera por você. Vista-se de manhã como quem é aguardado.

Mas por que a criação geme? Porque, quando Adão caiu, a casa inteira sentiu: “maldita é a terra por tua causa”. Deus sujeitou a criação à vaidade. Porém, diz o texto, em esperança (Rm. 8:20). A maldição nunca foi a última palavra de Deus sobre o mundo; foi palavra penúltima, pronunciada já com a promessa da semente da mulher no ar. E por isso o destino do mundo não é a lata de lixo, mas a libertação: Deus não vai jogar fora a obra das suas mãos; Ele vai redimi-la. A salvação bíblica não é a fuga das almas para fora do mundo, mas a restauração do mundo para os filhos de Deus. “Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra.”

E não é só a criação que geme. Nós também gememos, “nós, que temos as primícias do Espírito” (Rm. 8:23), aguardando a parcela final da adoção: a redenção do nosso corpo, no dia da ressurreição. Note bem quem geme: não os crentes fracos, mas justamente os que têm as primícias. O gemido não é sinal de pouca fé; é sinal de fé com apetite. Quem já provou as primícias sabe o gosto da colheita, e por isso geme por ela. Irmãos idosos e enfermos: cada dor que o corpo lhe lembra não anuncia que a sua história acabou, mas que a última parcela ainda não foi paga. Você não está se despedindo do corpo; está esperando a versão definitiva dele.

Mas há um terceiro gemido, o mais consolador de todos: “… o mesmo Espírito intercede por nós sobremaneira, com gemidos inexprimíveis” (Rm. 8:26). Este é um bebê que nunca nasceu antes (não há manual, não há vocabulário). Por isso “não sabemos orar como convém”, e o Espírito geme conosco, mais fundo que as palavras. Que consolo para você que se envergonha das suas orações! O texto não diz que o Espírito ajuda os fortes na oração; diz que ajuda a nossa fraqueza. A oração engasgada diante do diagnóstico, o suspiro que não vira frase, o silêncio de quem só consegue dizer “Pai…”, nada disso volta vazio. Há um Intérprete dentro de você e um Advogado acima de você; Deus não avalia a oração pela eloquência do original, mas pela fidelidade do Tradutor.

Junte agora os três gemidos (a criação, os santos, o Espírito) e veja para onde apontam: para o mesmo dia, a redenção dos filhos de Deus. E entenda o que isso faz com a nossa leitura da história: a ordem criada inteira está grávida de poder e de glória, e os filhos de Deus são o bebê. A história não é uma sucessão aleatória de tragédias, mas, uma gestação. Impérios sobem e descem, culturas florescem e murcham, e o ventre dos séculos vai fazendo o seu trabalho. O dragão sempre quis devorar o filho assim que nascesse (Faraó afogando meninos, Herodes degolando Belém, a cruz tentando calar o Filho) e sempre fracassou. Não haverá aborto na história de Deus.

Por isso, três palavras pastorais para a semana.

1) gema como parturiente, não como moribundo. O cristão não é estoico (o texto nos manda gemer). Mas a tristeza cristã tem sempre uma janela aberta para o leste. Leia as suas dores, e as dores do mundo no noticiário, como contrações, reais e doídas, mas a caminho do parto.

2) ore mesmo sem palavras. Não espere ter as frases certas para se achegar; achegue-se, e o Espírito completará o que faltar. A promessa do versículo 26 socorre quem se ajoelha sem palavras, não quem não se ajoelha.

3) trabalhe como quem prepara um enxoval. Se a história está grávida da glória dos filhos de Deus, então nenhum trabalho feito no Senhor será em vão: eduque os seus filhos como herdeiros, não como refugiados; trabalhe com excelência; evangelize sabendo que a seara pertence ao Senhor. E honre o irmão do banco ao lado, pois você está sentado junto a uma das maravilhas pelas quais o universo espera.

Que o Deus que sujeitou a criação em esperança nos conceda esperar com paciência, gemer com fé e trabalhar com alegria, até o dia da manifestação.

No aguardo do parto da glória,

Pr. Alan Kleber

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