NINGUÉM DESCE DO TREM

“Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Rm. 8:28).

Amada congregação,

Há versículos que sofrem por serem famosos. Romanos 8:28 é um deles: virou frase de para-choque, legenda de foto, consolo apressado em velório. Mas, no seu lugar de origem, ele não é um adesivo; é a engrenagem central da história universal. O apóstolo Paulo acabou de dizer que a criação inteira geme em dores de parto, grávida da glória dos filhos de Deus. E “todas as coisas” (absolutamente, todas) estão a serviço dessa gestação: cada acontecimento, cada império que ascende e cai, cada lágrima recolhida no odre de Deus. Nada é descarte; tudo é fio no mesmo glorioso tapete trabalhado pelo tecelão do universo.

Note, porém, o endereço da promessa: “aqueles que amam a Deus, que são chamados segundo o seu propósito”. O versículo não é um talismã universal; é uma cláusula pactual. Fora de Cristo, todas as coisas também trabalham, mas não para o bem. É dentro da pacto que a providência muda de rosto: o mesmo sol que endurece o barro derrete a cera. Por isso a primeira pergunta diante deste verso nunca é “as coisas vão mesmo melhorar?”, mas, “você realmente está em Cristo?”.

E como podemos ter tanta certeza de que tudo coopera para o bem? Porque por trás da providência há um propósito, e por trás do propósito há uma corrente que não quebra, aquela que os antigos chamaram de corrente de ouro da redenção: “Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou… E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou” (Rm. 8:29–30).

Cinco elos, um só grupo de pessoas, nenhuma solda quebrada. Repare no tempo do último verbo: glorificou (passado). Ainda não fomos glorificados na experiência, mas Paulo escreve como coisa feita, porque no contrato de Deus a última parcela já está paga; falta apenas a entrega das chaves.

Repare também no primeiro elo: “os que antemão conheceu”. O texto não diz que Deus predestinou com base no que viu que faríamos, espiando pelos corredores do tempo; diz que predestinou aqueles a quem conheceu, pessoas, não eventos. Na Bíblia, “conhecer” é linguagem de amor pactual: “De todas as famílias da terra, somente a vós outros vos escolhi (conheci)” (Am. 3:2). A primeira coisa que a Escritura diz sobre a sua salvação não é uma escolha sua mas, o amor dele, anterior ao mundo. Nós o amamos porque ele nos amou primeiro (1Jo. 4:19).

E qual é o alvo de tudo isso? Aqui está o centro que nos guarda tanto do orgulho quanto da angústia: fomos predestinados “para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos” (Rm.  8:29). A eleição nunca foi sobre o seu valor, sempre foi sobre a glória do Primogênito. Deus não salvou indivíduos por atacado, ele predestinou uma família imensa, parecida com o Irmão mais velho. Por isso, quem quiser ler o decreto eterno não deve tentar espiar o livro secreto de Deus, antes deve olhar para Cristo, o decreto feito carne, entregue publicamente na cruz. Cristo é o espelho da eleição: contemple-o, creia nele, e você está lendo o seu nome.

Desta corrente nasce a imagem que quero deixar com você nesta semana: ninguém desce do trem. O trem parte da eternidade passada, atravessa o tempo (o chamado, a justificação) e chega à glória.  E a lista de passageiros é a mesma em todas as estações. Se alguém pudesse ser arrancado no meio do caminho, o grito de guerra do versículo 31, “se Deus é por nós, quem será contra nós?”, viraria papel molhado. Mas ninguém pode. Quem persevera é, no fundo, preservado.

Duas advertências, para que a doutrina não azede: 1) isto não é fatalismo. O fatalista diz “está tudo decidido, logo nada importa”. O texto diz “está tudo decidido, logo tudo importa”, tudo coopera, nada é descarte. Quem crê no decreto não dá de ombros, antes geme, ora, trabalha e espera. Foi esta doutrina que pôs espinha dorsal nos reformadores diante das fogueiras e nos missionários diante dos oceanos: quem sabe que o decreto não falha pode gastar a vida sem medo de desperdiçá-la. 2) isto não é doutrina de partido, para vencermos debates; é doutrina de enfermaria, escrita para gente que geme. Se a sua predestinação não consola os aflitos nem o humilha diante de Deus, você ainda não entendeu o ensino de Paulo.

E há ainda um alcance maior: o mesmo decreto que garante a sua glorificação garante o triunfo do evangelho na história. Não são dois decretos, mas, apenas um: o Pai prometeu ao Filho as nações por herança, e a terra se encherá do conhecimento do Senhor como as águas cobrem o mar. Portanto, a igreja dos eleitos não vive como sitiada à espera de resgate, mas como herdeira em inventário: educa filhos como herdeiros, trabalha com excelência, evangeliza sabendo que a pregação não volta vazia. O Bom Pastor tem ovelhas nesta cidade, e elas ouvirão a sua voz e o seguirão.

Por isso, amado irmão: se as providências desta semana parecerem escuras, lembre-se de José do Egito, que precisou de vinte anos para dizer, chorando e abraçado aos irmãos, “vós bem intentastes mal contra mim; porém Deus o intentou para o bem”. Você está, talvez, no meio da história. Lembre-se: o versículo 28 é a garantia do fim dela. E se a velha pergunta voltar de madrugada, “serei eu um dos eleitos?”, não escale o céu: olhe para o Cristo oferecido a você no evangelho e agarre-se a ele hoje. Ninguém que se agarrou a Cristo descobriu depois que agarrou o vazio.

Se Deus é por nós, quem será contra nós?

Com vocês no mesmo trem,

Pr. Alan

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