“Que diremos, pois, à vista destas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós?”
(Rm 8.31)
Amada Congregação,
Todo castelo tem uma preocupação: o portão dos fundos. As muralhas podem ser altas, a porta principal pode ser guarnecida, mas, se lá atrás houver um portão destrancado, balançando nas dobradiças, toda a fortaleza é ilusão. E é assim que muitos crentes vivem: confessam a segurança em Cristo pela frente e, no fundo da alma, suspeitam que existe uma brecha por onde tudo pode se perder. O texto deste domingo é a vistoria completa do castelo, e a conclusão do apóstolo é: não há portão dos fundos, e nós precisamos dar um pouco de crédito a Paulo.
Vejam como ele fecha cada entrada.
1) A dúvida sobre a generosidade de Deus. “Aquele que não poupou o seu próprio Filho, antes, por todos nós o entregou, porventura, não nos dará graciosamente com ele todas as coisas?” (v. 32). É o argumento do “quanto mais”: quem deu o diamante não vai negar o embrulho. Há crentes que creem que Deus os salvou de má vontade e agora administra suas vidas com parcimônia. A cruz desmente essa suspeita para sempre: quem entregou o Filho não vai mesquinhar o pão, a direção, a graça de amanhã. E note o eco do monte Moriá, “não poupou”. Para Abraão houve um cordeiro substituto no mato; para o Pai celeste, o Filho era o Cordeiro.
2) A acusação. “Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica” (v. 33). O acusador continuará tentando, esse é o ofício dele, e a consciência e o mundo se juntam de bom grado. Mas a pergunta não é se alguém tentará, mas se a acusação prosperará. E não pode, pois, o único Juiz competente já deu o veredito, e toda acusação chega atrasada ao tribunal. Aprenda, pois, a diferença entre a convicção do Espírito e a acusação do diabo: a primeira aponta o pecado e o empurra para Cristo; a segunda aponta o pecado e o empurra para longe dele. E a resposta ao acusador nunca é “não fiz” (porque muitas vezes você fez), mas “É Cristo Jesus quem morreu ou, antes, quem ressuscitou, o qual está à direita de Deus e também intercede por nós” (v. 34). O crente não vence provando inocência, ele vence apresentando o Advogado.
3) As circunstâncias. “Quem nos separará do amor de Cristo? Será tribulação, ou angústia, ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo, ou espada?” (v. 35). Paulo não escrevia de uma poltrona, ele escrevia da fila do matadouro, citando o Salmo 44, o lamento de justos entregues como ovelhas à morte. E é de lá que declara: “Em todas estas coisas, porém, somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou” (v. 37). Repare na preposição: em todas estas coisas, não “depois delas”. A vitória acontece dentro da tribulação, não na ausência dela.
4) O próprio eu. Alguém dirá: “mas e se eu mesmo, por minhas decisões, sair desse amor?” Paulo fecha até essa fresta. O que poderia persuadi-lo a desistir? Exatamente as coisas da lista: morte, vida, anjos, principados, coisas do presente e do porvir, poderes, altura, profundidade, ou, qualquer outra criatura (vv. 38–39). Porém, tudo o que está na lista já foi derrotado, porque nada “poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor”. A segurança do crente nunca esteve na firmeza do nosso aperto na mão de Deus, mas na firmeza do aperto dele na nossa. Pedro confiou na própria coragem e negou a Jesus três vezes. Foi a intercessão de Cristo, não a força de Pedro, que o trouxe de volta.
O capítulo 8 começa com “nenhuma condenação” e termina com nenhuma condenação possível, e isso não é frase de efeito, mas a conclusão de oito capítulos de argumento cerrado. Quem quiser abalar a sua paz terá de refutar Romanos inteiro primeiro. Por isso Paulo não diz “eu sinto”, mas, “estou bem certo” (v. 38). A certeza cristã é conclusão de argumento e ancoragem de amor, e por isso sobrevive aos dias em que não sentimos nada.
Portanto, o que Deus faz, na história, com um povo assim, que não pode ser condenado, não pode ser separado e não pode ser detido? Esconde-o num bunker até o resgate? Absolutamente! Ele o envia ao mundo. A segurança do crente não é travesseiro para dormir, mas uma armadura para avançar. E a arma do avanço é a mesma que desmontou o império romano: o sacrifício vicário, a cruz carregada com alegria, a única arma para a qual o mundo não tem contramedidas. Roma tinha resposta pronta para a rebelião: a cruz. Contudo, não tinha resposta nenhuma para gente que carregava a cruz cantando. Roma matou os cristãos, e os cristãos, morrendo, converteram todo um império.
Traga isso para a escala da sua semana: o casamento que persevera na dificuldade, a honestidade que custa a promoção, o perdão que custa o orgulho, a hospitalidade que custa o sossego, a visita ao difícil de amar. Cada pequeno martírio diário desmonta a maquinaria do mundo em escala doméstica. O mundo sabe responder ao egoísmo, mas, não sabe responder à cruz.
Portanto, vistorie o castelo com Paulo e durma em paz e acorde para a boa guerra. Meça os seus medos pela lista do apóstolo: se estão na lista, já perderam. E, se você ainda está fora de Cristo, veja o que lhe é oferecido neste evangelho: um amor do qual nada pode separar, comprado por um Pai que não poupou o próprio Filho. Tudo o mais no universo é criatura, e criatura não salva. Creia no Senhor Jesus e seja salvo.
Se Deus é por nós, quem será contra nós?
Pr. Alan Kleber