Explicando a Adoração Reformada

INTRODUÇÃO

O culto público de adoração no Dia do Senhor é a atividade mais importante da vida cristã. Nele, Deus se encontra com seu povo. Nele, o Senhor fala conosco através de sua Palavra e dos Sacramentos, e nós respondemos com oração, confissão e canto. Na adoração pública, Deus se inclina dos céus para alimentar nossa alma, fortalecer nossa fé e nos edificar como o corpo de Cristo. No culto a Deus chegamos prontos para ouvir, prontos para receber e prontos para agradá-lo.

Hoje em dia, os cultos de adoração costumam ser mais para agradar aos homens ao invés de agradar a Deus. Tornou-se comum que os cultos de adoração se concentrem em entreter o público, parecendo mais concertos de música sacra, apresentações de bandas ou conjuntos musicais, seminários motivacionais, do que a adoração sagrada ao Deus triúno. Contudo, a Bíblia nos ordena que “tendo recebido um reino inabalável, retenhamos a graça, pela qual sirvamos a Deus de modo agradável, com reverência e santo temor; porque o nosso Deus é fogo consumidor” (Hebreus 12.28-29).

Na Igreja Presbiteriana de Aracaju (IPA), você não achará as novidades da adoração evangélica contemporânea. Não há bandas gospel, efeitos especiais ou pastores modernos contando histórias irreverentes. Em vez disso, você encontrará uma liturgia bíblica, uma adoração alegre e reverente ao Deus vivo, e o Senhor Jesus Cristo sendo proclamado por toda a Escritura.

O QUE É UMA LITURGIA?

A palavra “liturgia” simplesmente significa “atos de adoração”. Uma liturgia se refere à ordem do culto em um serviço público de adoração. Cada igreja tem alguma forma de liturgia (mesmo que afirme não seguir qualquer ordem ou padrão). A liturgia que experimentamos na IPA tem precedentes históricos: cada parte pode ser encontrada nas liturgias históricas da igreja cristã, especialmente aquelas oriundas da Reforma do século XVI e dos primeiros Pais da Igreja Antiga.

Mais importante ainda, nossa liturgia está em total conformidade com a Palavra de Deus e é cuidadosamente planejada para nos conduzir a um diálogo pactual com nosso Criador e Redentor. A adoração reformada é um diálogo no qual Deus fala com seu povo por meio de sua Palavra e Sacramentos, e nós respondemos com oração, confissão e canto.

Deus entra neste diálogo pactual com seu povo todas as semanas no culto público a fim de renovar sua aliança da graça conosco. Apresentamos abaixo uma breve explicação de cada parte de nossa liturgia.

SAUDAÇÃO DE DEUS

Reunido o povo de Deus para a adoração, sua Palavra anuncia a graça e a paz para todos os que vêm a Ele por meio de Jesus Cristo. Como embaixador designado por Deus, o ministro levanta as mãos e anuncia a bênção de Deus em sua Palavra: ” … graça a vós outros e paz, da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo” (Romanos 1.7).

CHAMADO À ADORAÇÃO

O culto então começa com o Deus Triúno nos chamando por meio de sua Palavra para adorá-lo com reverência e santo temor. Um texto das Escrituras é lido como um apelo ao povo de Deus: “Vinde, adoremos e prostremo-nos; ajoelhemos diante do SENHOR, que nos criou” (Salmo 95.6). O Senhor nos chama para adorá-lo e receber de suas mãos as boas dádivas que Ele oferece para nossas almas.

CANÇÃO DE LOUVOR

Tendo ouvido a bênção de Deus, respondemos levantando a Ele nossas vozes e cantamos um salmo ou hino bíblico. Conforme nos foi ordenado: “Servi ao SENHOR com alegria, apresentai-vos diante dele com cântico” (Salmo 100.2). As palavras que cantamos ao Senhor são cuidadosamente escolhidas, pois o conteúdo de cada música deve estar de acordo com as Escrituras e deve nos fornecer um entendimento mais profundo sobre o Deus que exaltamos.

INVOCAÇÃO

Tendo ouvido o chamado de Deus para adorá-lo, respondemos em oração. Como povo pactual de Deus, nos levantamos e invocamos o seu santo nome, confessando que “O nosso socorro está em o nome do SENHOR, criador do céu e da terra” (Salmo 124.8).

LEITURA DA LEI

Deus anuncia sua vontade para nossas vidas por meio de sua lei, isto é, os mandamentos das Escrituras. A lei de Deus nos diz claramente como devemos viver e o que Deus espera de nós. Também revela a santidade de Deus, bem como nossa pecaminosidade, pois “… eu não teria conhecido o pecado, senão por intermédio da lei” (Romanos 7.7).

CONFISSÃO DE PECADO

Tendo ouvido Deus falar conosco através de sua lei, somos levados a confessar nossos pecados. Em primeiro lugar, fazemos isso silenciosamente, confessando nossos próprios pecados individuais. Então, em segundo lugar, fazemos isso de maneira pública e corporativamente, confessando a Deus como um povo, “Pequei contra ti, contra ti somente, e fiz o que é mau perante os teus olhos, de maneira que serás tido por justo no teu falar e puro no teu julgar” (Salmo 51.4).

DECLARAÇÃO DE PERDÃO

Tendo confessado os nossos pecados a Deus, ouvimos o anúncio alegre da sua promessa que diz: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1 João 1.9). Como embaixador de Cristo, o ministro declara perdão a todos os que confiam em Cristo e se arrependem de seus pecados.

CONFISSÃO DE FÉ

Confessamos juntos o Credo dos Apóstolos ou o Credo Niceno, ou ainda uma seção do Catecismo de Westminster. Herman Bavinck escreveu que “A confissão de um cristão não é uma ilha no oceano, mas o alto topo de uma montanha de onde toda a criação pode ser vista“. Fazemos isso não apenas para ser instruídos na fé cristã, mas também como uma oração a Deus onde declaramos que estamos unidos na verdade que Ele nos revelou: “há um só Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por meio de todos e está em todos” (Efésios 4.5-6). Os credos e confissões resumem de forma bela essa verdade revelada nas Escrituras.

ORAÇÃO PASTORAL

O ministro ora em nome da congregação, trazendo “o fruto de lábios que confessam o seu nome” (Hebreus 13.15), bem como uma intercessão pela igreja, pelo país e pelo mundo. Isso é concluído quando invocando o Senhor novamente, desta vez lhe suplica que “… o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, [nos] conceda espírito de sabedoria e de revelação no pleno conhecimento dele, iluminados os olhos do [nosso] coração, para saberdes qual é a esperança do [nosso] chamamento, qual a riqueza da glória da sua herança nos santos e qual a suprema grandeza do seu poder para com os que cremos, segundo a eficácia da força do seu poder” (Efésios 1.17-19).

CANÇÃO DE PREPARAÇÃO

Louvamos em preparação para o alimento que Deus está prestes a oferecer para nossas almas por meio da pregação de sua Palavra. Cantamos outro salmo ou hino, essencialmente dizendo ao Senhor: “A tua palavra é lâmpada para os meus pés e luz para o meu caminho” (Salmo 119.105).

LEITURA DAS ESCRITURAS

Tendo pedido a Deus para abrir nossos ouvidos e corações para receber sua Palavra, nós o ouvimos falar enquanto sua Palavra é lida. Isso também – “a leitura pública da Escritura” (1 Timóteo 4.13) – é um ato de adoração.

SERMÃO

Deus continua a falar enquanto sua Palavra é proclamada e explicada. Como o apóstolo Paulo disse ao jovem pastor Timóteo: “prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina. Pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, cercar-se-ão de mestres segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos; e se recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se às fábulas” (2 Timóteo 4.2-4 ). O ministro dá uma exposição fiel do texto, que em última análise nos chama ao arrependimento e à fé em Cristo Jesus.

CEIA DO SENHOR

Tendo ouvido a voz pactual do nosso Deus em sua Palavra, agora nos juntamos a Ele em uma refeição pactual. Assim como a Palavra pregada nos prometeu o favor de Deus em Cristo, também nosso Pai celestial adiciona esta conformação visível de sua promessa imutável. Na Mesa do Senhor, a fé torna-se visão. Pão e vinho nos garantem que Cristo veio, morreu e voltará novamente por nós. Participamos juntos para comungar e participar do corpo e sangue de Cristo: “Porventura, o cálice da bênção que abençoamos não é a comunhão do sangue de Cristo? O pão que partimos não é a comunhão do corpo de Cristo?” (1Coríntios 10.16).

CANÇÃO DE RESPOSTA

Tendo ouvido a palavra de Cristo e participado de seu corpo e sangue, atendemos ao mandamento apostólico: “Habite, ricamente, em vós a palavra de Cristo; instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente em toda a sabedoria, louvando a Deus, com salmos, e hinos, e cânticos espirituais, com gratidão, em vosso coração” (Colossenses 3.16).

COMISSÃO

Prontos agora para obedecer, os crentes são desafiados a ir ao mundo para servir a Deus e cumprir a Grande Comissão. O ministro anuncia o decreto do Rei: Jesus, aproximando-se, falou-lhes, dizendo: “Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra. Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século” (Mateus 28.18-20). O Senhor Jesus nos envia ao mundo para servi-lo.

BÊNÇÃO

No culto de adoração, o Deus triúno recebe a primeira e a última palavra. E ambas são anúncios de sua maravilhosa graça. Com as mãos erguidas, o ministro abençoa o povo do pacto com a Palavra de Deus, que está ao alcance de todos os que a recebem pela fé: “A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo sejam com todos vós” (2 Coríntios 13.13).

GLORIA PATRI OU DOXOLOGIA

Gloria Patri: Entoamos um cântico de louvor ao Deus Triúno por se revelar a nós por meio de sua Palavra.

Glória seja ao Pai, ao Filho e ao Santo Espírito!

Como era no princípio, e hoje e para sempre,

Eternamente! Amém! Amém!

Doxologia: Uma breve e triunfante canção de louvor e ação de graças ao Deus Triúno.

A Deus, supremo Benfeitor,

Anjos e homens deem louvor.

A Deus o Filho, a Deus o Pai,

E a Deus Espírito, glória dai.

Amém.

CONCLUSÃO

Nem todas as formas de liturgia são igualmente adequadas para expressar nossas convicções reformadas e presbiterianas. Não se pode separar a teologia da liturgia porque a teologia informa a liturgia e a liturgia informa a teologia. Vemos isso mais claramente quando nossos filhos crescem em igrejas presbiterianas com uma piedade batista ou carismática. Quando eles se tornam adultos e se mudam para outra cidade, não acabam em igrejas presbiterianas, mas em congregações batistas ou carismáticas, pois lhes parecem familiares.

Dr. Joseph Pipa Jr. afirma que isso aconteceu com os huguenotes franceses quando migraram para a América no século XVII. Eles estavam bastante familiarizados a uma liturgia rica e formal. Porém, quando chegaram no Novo Mundo e constataram que a liturgia das igrejas presbiterianas havia se tornado extremamente livre, sem uma ordem formal segundo as Escrituras e a tradição reformada, eles acabaram em igrejas anglicanas e episcopais por causa do poder emotivo de suas liturgias [1].

O culto das igrejas reformadas é claramente revolucionário e ao mesmo tempo restaurador, pois reintroduz o povo de Deus à adoração bíblica. Hughes Old diz que a reforma teológica “exigia uma reformulação da adoração” [2].

A adoração reformada deu vida e expressão às convicções da teologia reformada. As igrejas reformadas planejavam propositalmente cultos de adoração simples e espirituais, e que consistiam em um conteúdo bíblico rico e substancial, expresso por meio de um número limitado de elementos essenciais, porque isso é o que a teologia reformada exigia.

Terry Jhonson afirma que “a adoração reformada tomou a forma que conhecemos não por causa do gosto, preferências de estilo ou etnia dos reformadores, mas por causa da teologia que estava por trás dela” [3]. Portanto, se tentarmos comunicar a teologia e a piedade reformada por meio de uma liturgia amplamente evangelical, anglicana ou carismática, comprometeremos a doutrina, e a história confirma isso.

A adoração reformada nada contra a maré da cultura contemporânea. Enquanto a cultura celebra a juventude e a novidade, o culto reformado honra a sabedoria dos antigos. Enquanto a cultura nos encoraja à busca hedonista por prazer, o culto reformado encoraja uma congregação a se concentrar em dar alegria e prazer somente a Deus. Enquanto a cultura insiste que liberdade significa uma liturgia desordenada e sem forma, o culto reformado está fundado no princípio de que não há liberdade em meio à desordem e o caos disforme. Enquanto a cultura exalta a espontaneidade, a liturgia reformada nos treina em hábitos e respostas maduros. Enquanto a cultura lança seus apelos a um público soberano, o culto reformado é um apelo a um Deus soberano.

Rev. Alan Kleber Rocha

Pastor Titular

Notas

[1] https://banneroftruth.org/us/resources/articles/2003/a-reformed-liturgy/

[2] Hughes O. Old, The Reading and Preaching of the Scriptures in the Worship of the Christian Church, vol. 4: The Age of the Reformation (Grand Rapids: Eerdmans, 2002), 74.

[3] Johnson,Terry L. Worshipping with Calvin: Recovering the historic ministry and worship of reformed Protestantism. Evangelical Press. Edição do Kindle, posição 731.