Por que os cristãos adoram no primeiro dia da semana?

Com raríssimas exceções, os cristãos estão esmagadoramente unidos na sua disposição de adorar a Deus no primeiro dia da semana. Afinal, eles fazem isso há dois mil anos e raramente foram questionados sobre isso. Logo, por que não apenas seguir o fluxo? A resposta a essa pergunta é que deveríamos querer ser cristãos deliberados em tudo o que oferecemos a Deus. Não queremos ser culpados da “adoração voluntária” (εθελοθρησκεια ethelothreskeia) que o apóstolo Paulo condena em Colossenses 2:23. Somos obrigados a oferecer a Deus o que Ele exige de nós, e nada mais. Então, por que adoramos no primeiro dia da semana? Por que a Igreja não reteve o sábado do sétimo dia praticado pelos judeus?

Texto bíblico

“Quanto à coleta para os santos, fazei vós também como ordenei às igrejas da Galácia. No primeiro dia da semana, cada um de vós ponha de parte, em casa, conforme a sua prosperidade, e vá juntando, para que se não façam coletas quando eu for”

(1 Coríntios 16:1–2).

Resumo do Texto

O apóstolo Paulo está lembrando aos coríntios sobre suas diretrizes, sobre como eles deveriam reunir a coleta para os santos em Jerusalém. Ele está fazendo com eles o mesmo que fez com os santos nas igrejas por toda a Galácia (v. 1). Logo, os coríntios deveriam fazer a sua coleta da mesma forma que os gálatas. Mas como foi isso?

A primeira coisa a notar é que Paulo estava exigindo com autoridade apostólica que fizessem isso de uma maneira específica. No primeiro dia da semana, cada um deveria reservar uma determinada quantia, pois Deus havia abençoado esse dia. Deve ter sido uma coleta na igreja porque, caso contrário, o problema que Paulo estava tentando evitar (“para que se não façam coletas quando eu for”) não teria sido evitado de forma alguma. Mas, o que deveria nos interessar nesta passagem é como Paulo descreve o domingo. Muitas traduções modernas dizem simplesmente “No primeiro dia da semana”, mas isto é impreciso. A frase literalmente é mian sabbatou – “No primeiro [dia de] sábado”.

Qual é a palavra para a semana no Novo Testamento?

Em grego, a palavra usual para semana é ἑβδομάς hebdomás. A tradução comum de mian sabbatou como “primeiro dia da semana” parece considerar o “sábado” como uma sinédoque, tomando a parte pelo todo – como em “muitas mãos fazem o trabalho leve”. Mas isso me parece confuso, especialmente considerando o fato de que os escritores dos evangelhos parecem estar usando a frase para apontar algo realmente significativo sobre a importância da ressurreição.

Vejamos algumas traduções literais:

“Agora, depois do sábado, quando o primeiro [dia de] sábado começou a raiar” (Mateus 28:1).

“Ora, passado o sábado… bem cedo pela manhã, no primeiro [dia de] sábado, foram ao sepulcro” (Marcos 16:1-2, 9).

“Ora, no primeiro [dia de] sábado, de madrugada, foram ao sepulcro” (Lucas 24:1).

“Ora, no primeiro [dia de] sábado, Maria Madalena foi cedo ao sepulcro” (João 20:1).

Como cristãos, adoramos a Deus Pai na autoridade do Filho ressuscitado no poder do Seu Espírito, e fazemos isso no primeiro dia da semana. E ainda assim, uma saudação muito comum usada por nossos irmãos de língua inglesa é Happy Sabbath (“feliz sábado”), e eles chamam suas refeições preparatórias de Sabbath meal (“refeições de sábado”). Para os cristãos reformados, isto não é uma extensão de sua teologia sistemática. O Novo Testamento repetidamente chama o primeiro dia da semana de sábado. É a maneira de Deus marcar como Ele fez novas todas as coisas na ressurreição de Cristo (Ap. 1:10; 21:5). O Domingo é realmente um sábado para o povo pactual de Deus na nova aliança.

Catecismo Maior de Westminster
Pergunta 116: Que se exige no quarto mandamento?

Resp.: No quarto mandamento exige-se que todos os homens santifiquem ou guardem santos para Deus todos os tempos estabelecidos, que Deus designou em sua Palavra, expressamente um dia inteiro em cada sete; que era o sétimo desde o princípio do mundo até à ressurreição de Cristo, e o primeiro dia da semana desde então, e há de assim continuar até ao fim do mundo; o qual é o sábado cristão, que no Novo Testamento se chama Dia do Senhor (Gn. 2:3; Is. 56:2,4,6,7; I Co. 16:2; At. 20:7; Jo. 20:19-27; Ap. 1:10).

E assim Cristo descansou

Leia Hebreus 4 com muito cuidado. O apóstolo ensina que devemos tomar cuidado para não deixar de entrar no descanso de Deus da mesma forma que os israelitas no deserto não conseguiram entrar. A fé é o caminho para entrar no descanso (Hb. 4:1-3). As obras de Deus foram concluídas na fundação do mundo, e então Ele descansou. Mas então, séculos depois disso, Ele disse que os infiéis nunca entrariam no Seu descanso, da mesma forma que os israelitas infiéis não haviam entrado no Seu descanso (vv. 3-5). Isso significa que entrar no Seu descanso ainda é um convite aberto – “resta entrarem alguns nele”.

Então Deus, em Sua misericórdia, novamente marcou um determinado dia, chamando-o de Hoje. Não endureçam seus corações enquanto Sua voz chega até vocês Hoje (vv. 6-7). Se Josué tivesse conseguido isso através da invasão de Canaã, Deus nunca teria falado de outro dia depois daquele nos Salmos (v. 8). E é por isso que…

“Portanto, resta um repouso (σαββατισμος sabbatismos) para o povo de Deus. Porque aquele que entrou no descanso de Deus, também ele mesmo descansou de suas obras, como Deus das suas” (Hb. 4:9–10).

A quem se refere aqui os pronomes do v. 10? Não pode estar se referindo a algum fariseu desanimado, que finalmente desistiu de suas obras vãs e depois entrou num descanso santo. Isso não é nada parecido com Deus criando o mundo e depois descansando – e essa é a comparação explícita que é feita. Então, o que isso significa? Assim como Deus criou o mundo em seis dias e depois descansou, também Cristo recriou o céu e a terra em três dias e três noites, e então Ele entrou em Seu descanso. E é por isso que os cristãos ainda têm um descanso sabático, que é o nosso primeiro dia de sábado.

Trabalhemos, portanto, para entrar nesse descanso da ressurreição (v. 11). Não deixemos de entrar no descanso dominical da ressurreição da mesma forma que os judeus falharam no deserto. Por que então o domingo? Porque o oitavo dia, o primeiro dia da semana, o primeiro dia de sábado, é o glorioso Hoje. “Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais o vosso coração”.

Do princípio

A Epístola de Barnabé (c. 100 d.C.) diz o seguinte:

“Ele finalmente lhes disse: “Não suporto vossas festas e vossos sábados”. Vede como ele diz: não são os sábados atuais que me agradam, mas aquele que eu fiz e no qual, depois de ter levado todas as coisas ao repouso, farei o início do oitavo dia, isto é, o começo de outro mundo. Eis por que celebramos como festa alegre o oitavo dia, no qual Jesus ressuscitou dos mortos e, depois de se manifestar, subiu aos céus.”

Na primeira entrega dos Dez Mandamentos, a razão para a observância do sábado foi a criação do mundo em seis dias e o descanso no sétimo:

“Porque, em seis dias, fez o SENHOR os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há e, ao sétimo dia, descansou; por isso, o SENHOR abençoou o dia de sábado e o santificou.” (Êx. 20:11).

Na segunda entrega dos Dez Mandamentos, a razão apresentada foi alterada. Foi agora por causa do Êxodo do Egito:

“Porque te lembrarás que foste servo na terra do Egito e que o SENHOR, teu Deus, te tirou dali com mão poderosa e braço estendido; pelo que o SENHOR, teu Deus, te ordenou que guardasses o dia de sábado” (Dt .5:15).

Na terceira entrega dos Dez Mandamentos, somos lembrados de que a ressurreição de Cristo mudou absolutamente tudo:

“Pois isto: Não adulterarás, não matarás, não furtarás, não cobiçarás, e, se há qualquer outro mandamento, tudo nesta palavra se resume: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. O amor não pratica o mal contra o próximo; de sorte que o cumprimento da lei é o amor” (Rm. 13:9-10).

“Foi precisamente para esse fim que Cristo morreu e ressurgiu: para ser Senhor tanto de mortos como de vivos” (Rm. 14:9).

Isso ocorre porque Cristo é tudo. Cristo é o nosso descanso da criação. Cristo é o nosso descanso no Êxodo. Cristo é nosso descanso ressurreto. E isso significa que Cristo é a pedra fundamental para cada primeiro dia de sábado sucessivo até o último dia.

Nele, o Senhor do sábado,

Rev. Alan Kleber

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